segunda-feira, 16 de março de 2009

DIANTE DO FIM


Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena pagar em dia o IPTU, se vale a pena ser patriota, se vale a pena assistir a novela das oito, se vale a pena abaixar o som para não incomodar o vizinho.

Diante do fim a gente fica pensando se vale a pena ver o noticiário em que nos dizem que a crise continua e que os políticos vão ser obrigados a nos arrochar um pouco mais para manter a soberania nacional.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena discutir com o homem da fruteira para pechinchar o preço, se vale a pena reclamar do colega de serviço que nos derrubou para ganhar um milésimo a mais em seu salário e que não foi suficiente para trazer para a sua mulher e filho um momento de dignidade e de orgulho, muito antes pelo contrário.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena se inscrever para o Big Brother para, com muita sorte acabar sendo repórter por um dia em uma feira-livre de jacarepaguá ou jogar na Mega-Sena e ser agraciado com um prêmio fantástico que é igual ao salário mensal do Ratinho ou do Silvio Santos.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena se ser bom por toda a nossa vida, por todo o segundo em que respiramos e para todas as pessoas que encontramos em nosso caminho e no final a nossa nota ser quase igual a do cara que “ferrou” com todo mundo o tempo todo e que nos últimos minutos resolveu ser bom ficando com uma média quase idêntica a nossa.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena acreditar em um Deus que teve apenas um filho único, quem sabe pela crise que faz com que tenhamos menos filhos para sustentar.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena ser bom em um mundo que só sabe reverenciar quem venceu, não importa como.
Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena estar vivo em um mundo em que pais estupram filhos e mães jogam seus fetos no lixo.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena achar que vale a pena tentar, pensar se realmente é possível mudar, acreditar que é possível tocar.

Diante do fim a gente começa a pensar se valeu a pena um dia ter sentido, de um dia ter sorrido, de um dia ter chorado.

Diante do fim a gente começa a pensar se valeu a pena um dia ter vivido.
(Para a minha esposa Marilene, a quem eu credito tudo o que valeu a pena em minha vida)

2 comentários:

Liane Schneider disse...

Parabéns pelo blog, e pela determinação.
Escrever, além de terapêutico, é uma peraltice que nos aproxima do belo...
See you!

Tania Barros Cavadini Editora, docente e escritora disse...

Muito bacana a crônica, torno a dizer.