segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

FILA DE BANCO



Alguém aqui já ficou em fila de banco?


Para mim a última coisa do mundo é ir para uma fila de banco.


Eu quero prestar uma homenagem ao responsável pela idéia do caixa eletrônico, pois dá para sacar, depositar, pagar conta, transferir, sem falar que tem a internet, que teoricamente, facilita ainda mais. Essa eu evito, pois apesar de ter linux, sites seguros, etc. sempre tem alguém que acaba sendo limpo, por um gaiato do outro extremo do país.


Eu nunca fico em fila de banco. Eu me sinto um homem liberto. Paguei minha pena quando era office-boy, e minha profissão era ficar numa fila de banco, numa fila de cartório, numa fila de imobiliária, numa fila de emprego (opa!).


Hoje não, as poucas vezes em que é preciso enfrentar esse verdadeiro inferno, é quando um parente distante me pede “um” emprestado e não trabalha com o mesmo banco que eu e daí, além de mandar um dinheiro, ainda sou obrigado a enfrentar uma fila de banco.


Quem costuma ir ao banco já deve ter reparado nas atitudes das pessoas que estão na fila. Esbravejam, xingam, reclamam, ironizam, acusam o governo, passam na frente dos outros, se jogam no chão, perdem a razão.


E como não é possível trocar seu lugar na fila, a não ser que seja para trás, você é obrigado a ouvir o assunto dos dois de trás ou dos dois da frente, ou dos quatro juntos, durante no mínimo, meia hora. Se o assunto fosse criativo e inteligente, a espera não era tão dolorosa, mas normalmente estão falando de doença, das varizes da tia Maria e das crises de caganeira do vô Arlindo, que não é nada ruim se comparada com o assunto mais comum nessas horas: a dança dos famosos do Faustão. Eu odeio fila de banco.


Fala sério. Se eu fosse responsável pelo departamento de psicologia de alguma empresa, nem perdia meu tempo com aquelas infinidades de testes e entrevistas. Pedia para o candidato me fazer um favor e ir ao banco pagar uma conta de luz.


Seguiria o cara e ficava observando qual seria a sua reação na fila do banco. Se ele não fugisse com o meu dinheiro, já passava pela primeira fase do teste. Se ele não perdesse a cabeça na fila, já passava na segunda fase. Agora, se ele saísse de lá com um sorriso no rosto, reprovava ele na hora e mandava internar.


Quando, finalmente chega-se ao caixa, a gente já está tremendo de medo que vá cair o sistema bem naquela hora, que o caixa diga que fechou, que o formulário que levamos não é o correto, que aquele caixa é só para atendimento prioritário, que não trouxemos a vela da primeira comunhão ou qualquer outra coisa.


Apesar destes receios, me encosto no guichê e nem falo nada. Não é falta de educação, não me entendam mal.


Imagina se todo mundo diz um simples bom dia no início e um muito obrigado na volta para o caixa, que leva 05 segundos cada um. Se o mesmo retribuir com uma resposta e multiplicando esse tempo por 56, que é o número de pessoas na fila, já se passou meia hora, só nessas convenções ridículas.


Portanto ninguém deve falar com o caixa, nem um pio.


Sem falar nos surdos que recebem um bom dia e não escutam, e é preciso repetir o cumprimento e daí passamos o dia na fila.


Finalmente o caixa me olhou, como que percebendo que eu não queria assunto, somente fazer meu depósito, rapidamente pegou minha guia e o dinheiro, começou a digitar, eu feliz como uma criança, quando de repente ouço um grito: “Ninguém se mexe, é um assalto”.


Sérgio Lisboa.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

O SUSPEITO É SEMPRE O MARIDO

Já faz um bom tempo em que os casos policiais de maior repercussão na imprensa, onde aparece uma mulher morta misteriosamente, o suspeito número um, o indiciado e o que sempre vai preso é o marido dela.

A maioria dos casos não tem provas materiais, somente uma série de indícios do tipo “ele brigou com ela na lua de mel” ou “ele esqueceu o dia do aniversário dela” ou o mais contundente, o mais indefensável “ele reclamava para ir ao supermercado”. Esse último indício, meu amigo, faz uma junta de advogados largar o teu caso e te deixar com a Defensoria Pública.

A situação está tão preocupante, que o Vaticano já está preparando um pronunciamento oficial para tentar salvar a instituição casamento (já há uma diminuição preocupante do número de casamentos em função deste fenômeno), e quem sabe até criar uma nova doutrina, obrigando que cada casal tenha seu respectivo amante, para servir como bode expiatório para qualquer crime que possa ter um dos casados como suspeito.

A polícia alega que seus inquéritos se baseiam em investigações, depoimentos, experiência e procedimentos científicos e que descobriram uma forma de resolver o caso sem sair da delegacia.

“Nós não temos culpa do cara ter casado com uma “mocréia” e ela aparecer morta, justo no dia que ele resolveu dar uma escapadinha”.

Eu acho que a polícia tem uma cartilha pronta para cada caso, baseado em estatísticas anteriores, que dá uma maior agilidade às resoluções dos casos.

Se o sujeito apareceu morto por afogamento, só pode ser o entregador de água mineral.

Se foi morto com a garganta cortada, foi o barbeiro (mas foi um acidente num atendimento a domicílio).

Se aparece esquartejado, é lógico que foi o açougueiro.

Se foi morto e estuprado, foi o próprio filho para se vingar do fato de ele viver comendo a mãe do menino.

Se morreu enforcado, dá uma olhada se os carnês estão em dia.

Se morreu por parada cardíaca, é a amante gostosa.

A cartilha é longa e dá uma lista enorme.

Eu confesso para vocês que pensei mil vezes antes de escrever esse texto, pois (deus me livre), se acontece algo com a minha mulher, eles ainda vão dizer que eu, além de suspeito, era um sádico que editou o plano diabólico numa crônica.

Se acontecer uma coisa com a minha mulher, façam qualquer coisa para fazer justiça, mas pelo amor de deus, não usem essa cartilha.

Sérgio Lisboa

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O CAOS É A MELHOR COISA

Uma vez eu ouvi de um político da segunda divisão (era suplente de vereador de um pequeno município), uma definição que eu achei muito interessante. Ele me disse que o político faz de tudo para manter o caos e a bagunça, pois é a melhor coisa do mundo para eles.

Eu fiquei impressionado com aquela afirmação, mas ele nem esperou saber de mim se eu concordava ou se sequer tinha entendido o que ele queria dizer, e continuou a discorrer sua tese.

Ele disse que numa situação em que tudo funciona perfeitamente, não é possível se fazer os famosos “pequenos favores”, a torre de petróleo no quintal, para um político que quer se reeleger.

Se o poder público deixa bem limpa a cidade, ele não pode ir lá na tua rua e limpar especialmente para ti, que pode vir a ser cabo eleitoral dele.

Se o sistema de saúde funciona bem, ele não pode te passar a frente nas filas, porque elas não existem.

O caos e a bagunça, também são parceiros da prestação de contas, uma vez que quanto mais obscuros forem os procedimentos e os registros, mais difíceis ficam as cobranças com relação aos desvios.

Ele não vê vantagens em sua pasta funcionar como um relógio, com todos os procedimentos dentro dos padrões da legalidade, pois não há possibilidade nenhuma de sua intervenção, a não ser a de acompanhar o andamento das coisas.

Portanto, eu entendi agora o esforço que os agentes políticos fazem para se elegerem.

Precisam, a todo o custo, manter a desordem e o caos generalizado, como uma seita satânica milenar, sempre tendo um novo membro para substituir os já cansados da lida. E convenhamos, para essa missão, eles estão sendo muito bem sucedidos, inclusive usando, nós os simples mortais, como cúmplices de suas maquiavélicas articulações, transferindo-nos os ônus de suas práticas, além de nos deixar com um complexo de culpa incurável, fazendo-nos acreditar que esse país não vai para a frente por que nós, brasileiros é que não temos jeito.

Os aliens estão tomando os nossos corpos.

O funcionário público de carreira, que convive com esse ninho de ovos de aliens, que saltam direto em nosso rosto, para nos usar como incubadoras de novos monstros, têm seu cérebro dominado por eles, para, como abelhas-operárias, servir à rainha e a seus ovos.

Vocês dirão que já sabiam disso tudo há muito tempo, pois lêem Arnaldo Jabour, mas eu trago aqui um testemunho de um réu-confesso, de um alien, que após ser chocado para virar um parasita devorador, está neste momento pedindo asilo e disposto a contar as suas memórias.

Um alien arrependido é dose para predador.

Sérgio Lisboa

QUESTIONADORES DE SEMINÁRIO

Num seminário sempre tem aqueles que fazem questão de mostrar uma cultura que parece um pouco mais avançada do que a dos primatas, e que, geralmente demoram quarenta e cinco minutos fazendo uma pergunta, para o palestrante simplesmente responder “é possível”.

Já vi em seminários, participantes, fazerem uma pergunta tão demorada, que juro, falou mais tempo do que o palestrante durante todo o seminário. Eu acho que é isso: tem um monte de palestrantes frustrados, que ninguém chama para falar, que eles acabam indo nas palestras dos outros só para mostrar que tem conhecimento e ter a grande chance de se apresentar.

Está certo que um palestrante fale durante uma hora, (palestrante que fala mais do que uma hora ninguém agüenta, aliás, nem que fosse o próprio criador daria para ouvir mais do que uma hora), e até por uma questão de demonstração de interesse, para não dizer de educação, deve-se fazer alguma pergunta.

Em outro seminário, que era um debate de palestrantes, que falaram um tempão cada um, de assuntos totalmente diferentes, para uma platéia de trezentas pessoas, quando, no final, o mediador perguntou – “alguém tem alguma pergunta?” Ninguém tinha. Confesso, fiquei constrangido.

Um outro tipo de participante é aquele que sempre tem uma pergunta tão primária, tão ridícula, tão nada-a-ver-com-nada, e que normalmente leva uma eternidade para o facilitador responder - já que é preciso, diante do gabarito do perguntador, começar da alfabetização até chegar na física quântica.

Nisso, o seminário que estava programado para acontecer numa sexta-feira, só vai ser encerrado quarta de manhã, sem pausa no fim de semana.

Na faculdade é a mesma coisa, inclusive eu sugiro que quem está cursando uma faculdade ou até mesmo o ensino fundamental e médio (pensou que ia dizer primário e ginásio, né?), deve exigir na cláusula contratual que evite as antas com perguntas idiotas na sala ou ao menos exija que o professor evite responder essas perguntas durante a aula, porque senão, numa aula de cinqüenta minutos, com três antas perguntando ou uma anta fazendo três perguntas e a resposta durando quinze minutos, já se foi a aula.

Atenção Procon: fiquem de olho. Vocês do Inmetro, também. Será necessário criar uma Portaria definindo os padrões e critérios da capacidade e da quantidade máxima aceitável de antas por metro quadrado, que eu acredito que seja a de uma anta para cada três salas, excluindo o professor .

Essa Portaria se for aplicada ao governo, tem critérios mais generosos, admitindo-se um número maior de antas, não por sala, mas por metro quadrado.

Agora só não sei como eles vão fazer, já que uma única anta, ocupa mais do que um metro quadrado.

Sérgio Lisboa

VAI SER SINCERO NO INFERNO

Alguém já disse um dia que amigo que é amigo, não apenas elogia: critica também.

Tudo certo. Mas só avacalhar com a gente, em nome de uma suposta imparcialidade, de uma suposta intimidade, de um suposto amor fraternal, também não dá.

Tem várias maneiras de ser sincero. Você pode elogiar meu sapato, minhas meias, minhas calças, meu cinto, minhas cuecas (minhas cuecas não, que é boiolice!), minha camisa, meu perfume (o que que é?), mas não. Vem dizer que os óculos que eu estou usando é brega.

Puxa vida! Tem dezenove itens com que a gente está se apresentando e ele escolhe um só, um mísero item, para dizer que não tá legal. Ah não!

Eu nem estou falando de questões anatômicas do tipo “que bronzeado bonito”, “perdeste a barriga”, “pareces bem mais novo”, etc.

Dá até para escrever um livro “Elogio forçado : A lipo-aspiração do ego”.

Não vem dizer que é paranóia, que é mania de perseguição.

Não é mania, estão me perseguindo mesmo.

Tem uma parábola em que Jesus, diante de um cão morto e em decomposição, e todos reclamando do que viam e do cheiro que sentiam, ele simplesmente enalteceu os dentes brancos do animal, dizendo que pareciam marfim.

Então, pessoal. Não dá para seguir esse exemplo.

Olha, deixa para lá essa parábola, senão daqui a pouco meus amigos vão dizer que eu estou fedendo mais que cachorro morto e que meus dentes parecem marfim, não pela brancura, mas pela saliência.

O que eu quero dizer é que, por favor, não se preocupem em ser sinceros comigo, quando o assunto for a minha individualidade. Podem mentir. Elogiem gratuitamente. Elogiem muito. Elogiem desmedidamente. Não se constranjam que eu consigo administrar essa elevação artificial de auto-estima, tipo o que o Banco Central faz com a moeda.

Mark Twain já disse : “Com um elogio eu vivo três meses”.

Estou nessa, me ajudem, com quatrocentos elogios eu vou até os oitenta anos.

Sérgio Lisboa

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A TECLA DO COMPUTADOR



Vocês já devem ter respondido a vários testes de personalidade em revistas, jornais e principalmente na internet. Existem testes, por exemplo, que definem sua personalidade ao saber como você frita um ovo. Se você não consegue fritar um ovo sem furar a gema é porque sua personalidade até convence durante um certo tempo, mas depois todos descobrem que seus relacionamentos são uma furada. Se você consegue não furar a gema ao preparar o ovo, você é uma pessoa muito cuidadosa, mas não é prática e o mercado de trabalho vai te atropelar, já que a primeira coisa que se faz ao comer um ovo é furar a gema. Você dirá que desbanca este teste porque odeia ovo frito. Nunca responda isso, pois aí o pior vai acontecer. Se você não come ovo frito, pois quer evitar a gordura, é um psicopata em último grau (o psicopata não frita os ovos, ele os arranca e come com zíper e tudo) e o resultado final de seu teste já é remetido automaticamente para a CIA, e é melhor você correr.

Tem também o teste do papel higiênico. Este teste foi concebido após longos estudos feitos com macacos em laboratórios e com políticos em banheiros de seminários de transparência pública, tentando provar que a maneira como usa o papel e o coloca no suporte, revelam em muito a sua personalidade. Eu prefiro não dar detalhes deste teste, por questões óbvias, mas posso assegurar que ele deixou traumatizados os cientistas que mantiveram contato com os candidatos testados.
Dizem que os políticos que serviram como cobaias, não utilizavam adequadamente o papel, descobrindo-se, assim, a origem dessa necessidade generalizada de apertar a mão de tudo quanto é eleitor.

Indo na carona destes testes de personalidade, eu resolvi criar uma maneira de descobrir a personalidade das pessoas pelo tipo de tecla do computador que elas mais gostam ou se identificam. Se a pessoa se identifica mais com a tecla “Enter”, é porque ela está sempre por fora e sofre de rejeição profunda, querendo participar a qualquer custo, mas nunca é lembrada.
Se a tecla preferida é o “Delete” essa pessoa tem uma grave crise de talibanismo e prefere, ao invés de resolver os problemas, acabar com eles.Se prefere o “Backspace” essa pessoa quer distância de todos e não gosta de se misturar.Se prefere a tecla “Esc”, essa pessoa está sempre querendo voltar ao passado, ainda não se encontrou e não consegue sequer ter maturidade para enfrentar o futuro. Agora, se você é daqueles que gosta de todas as teclas, indistintamente, meu amigo, lamento muito te dizer, mas está na hora de você ir para a zona.
Sérgio Lisboa

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

LEITE NA VOLTA

Esposas são incríveis. Elas pensam que nós não cansamos, não temos sono e que estamos sempre em condições de sair a qualquer hora só para buscar brócolis e margarina sem sal, para fazer para o almoço de domingo, porque a mãe dela gosta muito.
Falando nisso eu nunca entendi porque ela faz o brócolis com margarina sem sal, se no almoço a mãe dela come com o saleiro na frente, parecendo um sambista, em frente à comissão julgadora, chacoalhando freneticamente o tubo de sal. Sem falar que parece uma gincana de maluco sair tarde da noite atrás de brócolis e margarina sem sal. Primeiro que brócolis já é difícil de achar até de dia e margarina sem sal é mais difícil do que foto de presidente se formando na universidade (foi mal!).
E olha que não é por falta de reclamação, de gritaria, de discussão, de valorização da profissão de marido. Nada disso adianta.

Uma vez, num fim de semana, eu fui dizer para ela que eu estava muito cansado, que tinha trabalhado a semana toda, que precisava de umas férias e que, naquele dia, eu não estava em condições de lavar o carro. Vocês sabem o que ela me respondeu? -Imagina, você é muito mais durável que o carro. Pode isso?

E a fanta uva? Ah! a fanta uva. Ela adora fanta uva. Vocês vão me dizer que esta tarefa não é tão difícil, só tem um porém : seu desejo chega ao ápice, tornando-se completamente incontrolável, somente tarde da noite, quase de madrugada. Peguei vocês!
Imaginem a cena : eu, tarde da noite, entrando no único bar aberto aquela hora, parecendo aquelas cenas de filme de faroeste, só mal encarados, todos olhando para mim e eu claro, indignado pela minha missão, peguei a primeira camiseta que eu vi em casa. Só no centro daquele saloon do velho oeste, que eu fui perceber que a camiseta era da minha mulher, uma camiseta lilás, com a foto do Gianechinni no peito. Ainda assim, tomei coragem e cheguei junto ao balcão, fiz uma cara de mau, engrossei a voz e mandei :- Tem fanta uva?

Definitivamente as mulheres não se importam com a nossa estrutura física, mental, hormonal, sacal. O que elas querem é que nós estejamos sempre ali, firmes e prontos para satisfazer seus caprichos, seus desejos, e o que é pior, muitas vezes elas nem fazem muita questão daquilo que nos pedem, mas pedem apenas para testar se o serviço está funcionando, tipo criança que passa trote periodicamente, só para ver se o vizinho está mesmo em casa.

Para tentar, definitivamente, sensibilizar a mulher, forjei meu próprio seqüestro. Liguei para casa, com voz assustada, dizendo que fui seqüestrado, que iriam me matar, que (agora vem o golpe) eu só fui pego por que andava pela noite atrás de alface crespa e que se eu saísse desta, essa rotina teria de acabar. Falei tudo isso e fingia alguns barulhos no fundo, alguns gritos e a mulher quieta no telefone.
Daí eu não agüentei e disse: - Não vai dizer nada, mulher? Ela bem calmamente, sem o menor abalo, disse: - Não esquece de trazer leite na volta.
Sérgio Lisboa

domingo, 27 de janeiro de 2008

FILMES DE ARTE

Sempre se disse que gosto não se discute. Eu acho que essa regra foi criada para proteger os que gostam de sorvete de amendoim, de usar camisa amarela, de andar de carro verde-limão (ou carro amarelo e camisa verde-limão), de comer strogonof, de assistir Domingão do Faustão, de beber vinho suave, de leite com nata, de arroz queimado ou até quem sabe de reeleger presidente. Mas e filmes, dá para discutir?

Eu estou falando isso porque ás vezes a gente fica até constrangido com algumas pessoas que ainda não conhece, quando o assunto é o filme preferido. Todo mundo fica de olho, como que esperando o depoimento de um nazista no tribunal de Nurenberg, aguardando a nossa opinião, cada um com um taco de beisebol na mão.O segredo é começar dizendo: “já vi muitos filmes bons e é difícil dizer agora”. Neste momento os inquisidores, geralmente, baixam os tacos, relaxam um pouco e começam a dar o seu veredito, digo a sua opinião.

Uma lista dos filmes mais chatos do século, em que a maior parte do tempo ficam dois atores, cada um em uma poltrona, divagando sobre um assunto que mistura o pós-moderno com retrovisor, classificados como filmes de arte (por favor Jabour, é só uma crônica, não leva a sério).

É claro que já tivemos excelentes filmes ao longo da história do cinema como, Cidadão Kane e Casablanca, só para ficar nos mais antigos, mas daí a rotular as pessoas pelo tipo de filme que ela assiste, é outra coisa. Se alguém ali confessasse ser fã de Steven Segal e Van Damme, meu deus do céu! Não tem como medir as conseqüências da tragédia.

Para mim, filme de arte é um documentário sobre a obra de Van Gogh.

Mas voltando à Inquisição, um deles se virou para mim, convencido de que eu já estava abduzido pelas idéias dominantes e pronto para reproduzí-las, indagou-me: já viste o filme “O Filho da Noiva (o belo filme argentino de Campanella)?” Foi quando, apesar de ter me preparado física e psicologicamente para enfrentar qualquer tortura, mesmo as mais inimagináveis, dos instrumentos de tortura mais bizzarros, dos ETs mais distantes da galáxia, vacilei por um instante e sem pensar respondi :Ainda não! Por acaso não é a continuação de “A noiva do Chucky?”
Sérgio Lisboa

CARTEIRA QUE PARECE UM BIG MAC



Se existe uma coisa que a esmagadora maioria dos homens tem em comum é andar com a carteira mais cheia que um hambúrguer duplo. Carteira cheia, não necessariamente de dinheiro, aliás, quase nunca tem dinheiro, mas têm dezenove cartões de crédito, dezessete deles já vencidos, certidão de nascimento da mãe, uma foto do filho do primo do compadre do vizinho, além de cartões de visita tão desatualizados, que um deles é de uma firma de conserto de mimeógrafos.
Tem até um bilhetinho “comprar um atari para o Junior (o Junior tem 23 anos, a mulher está esperando um filho e o atari está valendo, hoje, uma fortuna para exposição em museu).
Um bilhete amarelado escrito “vale treis cascú di mirinda uva”

Nos finais de semana em que ele sai, só de calção, pra comprar um churrasco pronto para a família, não sem antes ter que ficar esperando ficar pronto, mais ou menos uma meia caixa de cerveja (é o tempo que demora um churrasco para ficar pronto), é engraçado observar onde ele vai colocar este hambúrguer, pois o calção não tem bolsos e ele já está com uma pilha de chaves na mão.

Sem falar no caso de que, se ele perder a carteira ou for assaltado, será necessário contratar uma firma de assessoria jurídica para fazer todos os contatos necessários para o bloqueio dos cartões e ocorrências policiais para os documentos, além de um médium, especialista em regressão, para auxiliar a memória no levantamento de todos os documentos que ele levava na carteira.

O necessário para se levar na carteira é a habilitação, que já vale como identidade, documento do carro, dobradinho para não ocupar espaço, um cartão de crédito, um cartão do banco e uma nota de cinqüenta reais, para eventualidades. Pronto. Tudo isso cabe perfeitamente na capinha de plástico, que vem junto com a carteira de motorista, e pode ser colocada até no bolso interno da sunga na beira da praia.

Será que a carteira dos homens, recheada com vinte centímetros de altura é para impressionar, parecendo que está muito bem de grana? Chegar numa loja para abrir um crediário e mostrar aquela infinidade de cartões e fotografias do cachorro, um patuá abençoado quando ele tinha três anos de idade, deve impressionar muito.

Se for, vale a pena todo esse esforço, mas eu já prefiro andar mais leve e fazer menos ligações quando perder os documentos ou for assaltado e mesmo porque, alguém conhece, por acaso, um bom médium especialista em regressão?
Sérgio Lisboa

sábado, 26 de janeiro de 2008

PRECONCEITO CONTRA OS CORRETOS



A gente cria as filhas com o melhor pediatra, aparelho nos dentes, disco da Xuxa, curso de inglês, natação, aulas de ballet, escola particular, o melhor xampu, para depois elas se apaixonarem por um cara de boné, sem um dente na frente, e que fala “nóis peguêmo!”
O nosso sonho era que o namorado da nossa filha fosse sócio majoritário da Microsoft, visse nela a reencarnação de Nossa Senhora e achasse o sexo discutível até mesmo para a procriação.
Entre o nosso sonho e a realidade gelada, a gente até já pede para deus, nosso senhor, que o cara trabalhe, nem que seja no Mac Donald’s, não bata nela seguidamente e que sua tara sexual seja um pouco controlada.

É preciso repudiar toda a forma de preconceito, até mesmo a política (pasmem), mas que há um preconceito muito forte, que ninguém nunca comenta, que cresce cada vez mais, que já se eterniza, que é o preconceito contra os corretos. Coitado dos corretos.
Eles disputam as vagas com caras que ficam o dia inteiro jogando futebol, bronzeados, sem a menor chance de rugas e cabelos brancos, uma vez que sua maior preocupação é saber quanto ganha por mês o lateral direito do Corinthians e além de tudo tem uma completa despreocupação com o romantismo, chamando todas as meninas de minha gostosa, enquanto os decentes se apresentam para a batalha com a pele mais branca do que a neve, com cabelos grisalhos, com gagueira, óculos mais grossos que garrafão de vinho e o máximo que conseguem ousar é a simples tentativa de pegar na mão da menina no terceiro mês de noivado.

Que disputa desigual, enquanto os de bonés chegam na casa do sogro, sem camisa e com bermuda cheia de bolsos, só para levar salgadinhos, pois nem documento carregam, conversando mais que camelô desempregado, os da pele de camarão sentam no sofá, com as duas mãos nos joelhos, parecendo o Clark Kent e ficam calados por exatos 703 minutos.

Eu tenho regras e princípios norteadores, embora eu more no sul e, se eu puder deixar uma lição para a posteridade, lhes deixo a seguinte:
-Minha filha : Não evite namorar caras de boné.
Sérgio Lisboa

CRÔNICAS

Um dia eu tive um plano genial. Decidi ser escritor. Não um escritor de romances, um erudito, um poeta, nada disso. Um escritor de crônicas. È, um escritor de crônicas. Dessas que se publica em jornais e revistas, que falam do cotidiano e quase sempre são engraçadas. Eu sempre achei ótimo aqueles caras escreverem o que pensam, debochando de todo mundo, incutindo suas idéias, poupando analista, liberando a bílis, sendo reverenciado e ainda por cima ganhando uma boa grana por isso. Então eu resolvi : vou ser escritor de crônicas.

O primeiro passo foi ler algumas crônicas, de alguns escritores já “conceituados”, para ter alguma idéia da forma como os assuntos poderiam ser abordados e até mesmo para adquirir noções sobre a quantidade de frases e linhas que se utilizam normalmente. Descobri que uma crônica tem de 30 a 60 frases de cinco a dez palavras por frase cada e é claro, tem um início, um meio e um fim.
Até aí não tem nada de absurdo se você deixar de lado o fato de que o assunto, com esse número de frases, de palavras, com início, meio e fim, tem que ser, eu diria pelo menos, um tanto quanto genial.
Tà bom. Se fosse fácil até o Presidente faria. Eu falei no início que queria ser um escritor de crônicas, com todas as vantagens que a atividade proporciona, agora ser um bom escritor é outro assunto. Dá um tempo.

Superada essa fase de baixa auto-estima, veio outra preocupação: se eu escrever algumas crônicas, como eu vou publicar? Quantas crônicas eu devo fazer para iniciar essa nova carreira? Foi aí que surgiu uma nova idéia: fazer 365 crônicas. Por que 365 ? Porque eu estaria garantindo para quem quisesse me contratar, um ano de publicações já prontas, se fosse uma publicação diária, sete anos se fosse semanal e trinta anos se fosse mensal.
È claro que, nesta ultima hipótese, nós já teríamos o tele-transporte e comidas em cápsulas e minhas crônicas ainda se refeririam aos congestionamentos que as carroças proporcionam em frente ao mercado público. Mas isso é outra estória.

Pensando bem, vou considerar essa nossa conversa como minha primeira crônica e, jornais do mundo, me aguardem, pois agora só faltam 364.
Sérgio Lisboa

ARROZ, FEIJÃO E TV A CABO

Todo mundo sempre fala que devemos ter prioridades, no nosso trabalho, nos nossos estudos, na nossa vida pessoal – prioridade é a palavra de ordem.
Mas o que é realmente prioritário? O que é prioritário para mim pode não ser prioritário para o outro. O que foi prioritário para a Madre Teresa pode não ter sido prioritário para o político (é só um exemplo, sem nenhuma conotação).
Para mim o que é prioritário na minha vida pessoal, mas especificamente na minha vida doméstica é: arroz, feijão e TV a cabo. Isso mesmo: arroz, feijão e TV a cabo. O arroz e o feijão são bastante óbvios nos motivos de sua importância, uma vez que são alimentos básicos, baratos e completos. Já a TV a cabo se tornou uma prioridade vital para mim, pois não consigo mais me imaginar vivendo sem ela, com a programação disponível na TV aberta, principalmente nos finais de semana.
Essa mistura de prioridades de algo tão acessível como o arroz e o feijão (será que é tão acessível?) com algo mais elitista como a TV a cabo, é porque minha saúde mental é tão importante quanto minha alimentação e para conseguir pagar eu troco a TV a cabo pela carne, pelo cinema, pelo biscoito, pelo refrigerante, etc.

Depois que conheci a TV a cabo, me sinto como Keanu Reeves, em Matrix, cuja vida real está em outra dimensão e não o que a maioria assiste pensando que é a vida real (alguns até conseguem furar o bloqueio da Matrix, com ligações clandestinas, como que tentando uma revolução contra os Smiths).

Na segunda-feira, quando chegamos ao serviço, o assunto é sempre a reportagem do Fantástico, o último capítulo da novela e a desclassificação daquele casal na dança dos artistas. Eu me sentia como um ET, sem ter como comentar os assuntos abordados, pois não assisti nada daquilo.
Surgiu então, uma idéia infalível para não parecer um ET na segunda-feira, se alguém te fizer essa pergunta: - você viu o Fantástico ontem? Você olha com uma cara de superioridade e diz: - Que dúvida! Ainda mais ontem que o Fantástico estava muito mais fantástico.
Sérgio Lisboa

A EXPLICAÇÃO PARA OS SONHOS



Uma noite antes de dormir minha mulher ficou brigando comigo por eu não ter pago o carnê com a prestação das Lojas Manlec, que eu havia esquecido. Era para ser só uma reclamação, mas eu tive a infeliz idéia de fazer um comentário cínico no meio da discussão. Prá quê? A mulher virou um bicho e a discussão virou uma briga séria, tão séria que, não tendo outra alternativa, tomei uma atitude drástica, atitude que todos os homens, se não tomam deveriam tomar, quando não há mais recurso numa discussão entre o casal: fui dormir.

Pelo menos nos meus sonhos eu posso tomar minhas próprias decisões e ninguém vai se meter com a minha vida, afinal se um homem não tem condições sequer de sonhar, então ele não é um homem é um animal (animal não sonha, não é?). Por favor se alguém já viu na internet que os animais também sonham, fiquem quietos senão eu não termino essa crônica.

Pois bem, o meu sonho naquela noite foi sublime. Eu estava num grande salão, com muito luxo, gente bonita, drinks e, junto ao piano estava cantando ninguém menos do que o Agnaldo Rayol (é aquele mesmo dos agudos fantásticos), numa performance belíssima, soltando a voz, ali do meu lado, sem palco, no mesmo nível do salão e só eu chegou perto dele para vê-lo terminar aquela canção de forma apoteótica. Quando ele terminou a canção, num de seus maiores agudos que já fora testemunhado, ele simplesmente se virou para mim, deu um sorriso e perguntou: tu já pagou a Manlec?
Sérgio Lisboa